ARIEL NOBRE

Homem trans, publicitário e artista visual. Este é Ariel, idealizador e realizador do projeto Preciso Dizer que Te Amo. Muito além de um documentário, o filme é uma campanha de prevenção ao suicídio, assunto pouco discutido, mas que permeia, desde sempre, a vida de pessoas LGBTQIA+.

Uma dessas é o próprio Ariel, que conta um pouco da sua história. Há 5 anos, ele sobreviveu ao suicídio e decidiu registrar no curta o que seriam as suas últimas palavras. “Estava vivendo a transgeneridade (“transição”) muito publicamente, o que atraiu documentaristas, jornalistas e isso foi muito conflituoso, porque eles lucravam com a minha história. A partir disso, entendi que eu próprio precisava contar a minha história”, relata.

Para ele, na perspectiva de uma narrativa, “algumas pessoas falam, e outras são faladas”. Diversas vezes, aqueles que o procuravam queriam saber sempre as mesmas coisas, que “não eram propulsoras e nem sugestões de mudanças”, principalmente em uma “situação onde isso era tão necessário”. 

“Eu entendi que não só precisava contar minha história, mas ganhar dinheiro com isso, que a minha história poderia ser um capital”, explica.

Em 2017, após ganhar um edital da SPcine, Ariel conseguiu tirar o projeto do papel. Em 2018, quando “o dinheiro caiu na conta”, a equipe fez o filme e colocou em circulação. “Os desdobramentos estão sendo incríveis”, diz. 

Porém, apesar das oportunidades, como estar em vários festivais no Brasil e no mundo, o artista conta que “tem muito perrengue”. “Também é muito duro. Eu era o único trans em todos os festivais que fui”, conta.

O último prêmio que ganharam foi de melhor filme no Goiânia Mostra Curtas. Além disso, a equipe foi indicada ao Grande Prêmio de Cinema Brasileiro. 

“FIZ ESSE FILME PARA O BRASIL”

Mais do que mostrar a sua história, Ariel também quer passar um pouco da vivência das pessoas trans no Brasil. 

“Eu acho que a criação de imagens hoje tá mais fragmentada. Aos olhos do mercado, somos “nicho”, mas a gente tem acesso a imagens que outras pessoas não têm. Por mais que as pessoas não queiram ver, tá ali. As pessoas vão se acostumando à ideia de travesti rica, por exemplo. A gente está avançando como sociedade, mas o Brasil fica muito passado”, diz. “Fiz o Preciso Dizer Que Te Amo para o Brasil, é uma entrega para o Brasil”, conclui.

ISOLAMENTO E SAÚDE MENTAL TRANS

A situação de pandemia causada pelo coronavírus nos deixou ainda mais alertes sobre o cuidado com a saúde mental, principalmente das pessoas trans. Para muites, o isolamento social tem um impacto ainda maior.

Segundo Ariel, o Preciso Dizer que Te Amo foi feito para esse momento. “Na primeira semana quando aconteceu o isolamento social, eu tava muito incomodado, sem saber o que pensar, sem saber porque. Eu sinto que a gente chegou até aqui pelo isolamento social. Fiquei muito confuso, tive que me convencer de que AGORA é uma atitude de cuidado. Ser trans vivo hoje é desafiar um status quo, é todos os dias ir como uma faca contra o isolamento social. O filme é sobre transcender isso.”

Ele conta que o curta é uma forma tecnológica de “fazer pactos de vida”. Apesar do momento difícil, Ariel ressalta que as coisas já melhoraram muito e enxerga o filme como um legado para as próximas gerações.

“É um pacto de vida pra transcender o que nos impõe, o isolamento social, a morte, a tristeza. No final, a gente ressuscita. O Preciso Dizer Que Te Amo é pra gente levantar da cama. É um transbordar muito além de um ativismo clássico, é um escancarar de alma publicamente”, explica. 

Dentro disso, Ariel lembra que o suicídio é mais do que uma questão pessoal, é também política e coletiva. “O que eu posso fazer é cuidar de mim, mas vou fazer publicamente, pra lembrar que é coletivo. É um documentário que não é sobre mostrar a realidade, é sobre transformar a realidade.”

CRISE DO CORONAVÍRUS E POLÍTICAS PÚBLICAS

A crise em decorrência do coronavírus deixou ainda mais evidentes os problemas que já existiam no Brasil. Para o publicitário, a preocupação maior é com os jovens, que precisam “fazer um duplo esforço”. Isso porque as lutas são muitas: financeiras, familiares, situações de abuso, etc. “As feridas são mais expostas. Agora nossa maior arma é o diálogo, a educação, a ciência”, afirma.

E, no meio de todo este caos, onde fica o papel do Estado? Afinal, o suicídio não seria uma questão de saúde pública? De acordo com Ariel, sim. “Por mais que seja difícil falar sobre, escutar sobre, ler sobre, ele é altamente evitável quando você se dispõe a isso. Só de existir um CAPS, o suicídio já diminui em mais de 10%”, explica.

Para o artista, na comunidade trans existe uma “epidemia de suicídio”. Segundo Ariel, 8 a cada 10 homens trans já tentaram suicídio. No entanto, nem entram nas estatísticas, já que representam 1% da população. Além disso, esbarram em um outro problema muito grande: a transfobia.

“77% dos homens trans não frequentam hospitais, mesmo com plano de saúde, por causa da transfobia. Como população, não somos capazes de colapsar um sistema de saúde, porque não somos sequer bem vindos lá. Não vemos o SUS como uma área de saúde ainda, infelizmente. A primeira coisa pra se ter políticas públicas ou pra se demandar qualquer coisa, são dados. Esse é o desafio da nossa geração, ser visto, contabilizado. Esse é o nosso desafio de ativista dessa época”, diz.

A conclusão de Ariel é que a pandemia da Covid-19 acaba abrindo velhas feridas e deixa à mostra uma epidemia entre as pessoas trans. “O Preciso Dizer que Te Amo é apenas uma dentre as milhares de soluções possíveis e um artifício, enquanto arte, para lidar com o isolamento social. Depois de 5 anos escrevendo o filme, me sinto mais preparado. O Preciso Dizer que Te Amo é uma ferramenta para lidar com a solidão, com a falta de sentido nos dias, com a falta de perspectiva”, completa.

 

Siga o Ariel e a página do filme:

Assista o filme nesse link

 

Escrito e editado em 17/05/2020, data em que perdemos mais uma pessoa transmasculina, preta, para o suicídio. Dedico esse texto a Demetrio Campos. Não será esquecido. 

Entrevista: Lu (Estudante e atuante em Saúde Pública. Trans não-binárie)
Revisão textual: Carol Dantas

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